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Título
EXPERIÊNCIA E REPRESENTAÇÃO CONCEITUAL EM KANT E ALVA NÖE
Aluno: Gehad Marcon Bark - Pesquisa voluntária - Curso de Filosofia (Bacharelado com Licenciatura Plena) (M) - Orientador: Tiago Fonseca Falkenbach - Departamento de Filosofia - Área de conhecimento: 70100004 - Palavras-chave: cognição; enactivismo; percepção.
Kant afirma, em passagem contida no § A50/B74 da Crítica da Razão Pura, que uma cognição humana só tem lugar a partir da união entre intuição e conceito. Ambos seriam elementos cognitivos, que somente quando unidos satisfariam a condição necessária e suficiente para uma cognição enquanto representação objetiva, na medida em que dá, ao sujeito percipiente, um objeto independente e distinto de meros estados mentais. Intuições são representações objetivas por meio das quais um objeto singular é referido de maneira imediata. Os conceitos também são representações de tipo objetivo, mas que se referem aos objetos apenas mediatamente, por representarem algum traço que pode ser comum a diversas coisas singulares. A cognição, segundo Kant, exigiria uma capacidade ativa pela qual objetos seriam representados de maneira geral. A intuição depende de uma capacidade passiva, que é a afecção, e o conceito exige a concorrência de uma capacidade ativa: o entendimento. E assim o faz, na medida em que essa somente uma capacidade ativa pode dar ao sujeito a generalidade própria dos conceitos. A tese da complementaridade estaria comprometida com a concepção segundo a qual uma representação objetiva exige mais do que a afecção produzinda no sujeito. É possível uma interlocução com a obra Action in Perception, de Alva Nöe, obra cuja tese central diz que o ato perceptivo não é algo que ocorre "nos indivíduos" ou "com os indivíduos", como se a parcela de contribuição do ser humano para a percepção do mundo fosse apenas passiva. Segundo a tese defendida uma percepção exigiria o concurso de habilidades corporais e de um entendimento prático sobre a forma como tais habilidades se relacionam com os estímulos exteriores. No capítulo 3 da obra, Nöe explora a correlação entre a percepção visual, e a posse desse tipo de conhecimento sensorial e motor necessário para a visão, sugerindo que o ato de percepção de objetos singulares envolve alguma representação conceitual, na medida em que propriedades como "forma", "volume" e "tamanho" não seriam imediatamente dados no objeto, mas percebidos como "propriedades de perspectiva", que se estabelecem na relação entre o sujeito e o objeto, e entre ambos e o ambiente. O conhecimento do modo como as habilidades corporais são empregadas, nesse contexto, é essencial para a percepção de determinadas propriedades dos objetos. Surge, então, o ponto de convergência entre a tese de Nöe e a tese da complementaridade kantiana, uma vez que, como visto, a cognição depende, segundo Kant, de uma capacidade ativa de representação geral de objetos.